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INÍCIO DE TUDO

Atualizado: 30 de mai. de 2023

Por Hélio Vilela de Carvalho


Tenho um amigo, aliás, amigão, que é corretor de plano de saúde, porém, se se lhe perguntar sobre tal, ele dirá que não é e nunca foi. Ele está mentindo? Não está, é que às vezes a pessoa contribui com algumas coisas que nem tem conhecimento do reflexo do que fez.

Explico melhor.

Em janeiro de 2004, meu amigão e eu estávamos mochilando na Chapada Diamantina por um período de duas semanas. O ponto de partida foi Lençóis-BA. Pelo fato de conhecer muito bem aquele lugar, não precisávamos de guia, eu era o guia, visto ter percorrido, por duas vezes, aquelas paradas, indo pelas mais diversas trilhas e visitando os lugares mais importantes e, até, os de mais difíceis acessos.

Levávamos cama, mesa, banho e cozinha nas mochilas que, nessas alturas, pesavam em torno de 25 kg cada uma, além do material fotográfico que, naquela época, ainda não era digital.

Explorávamos cada quadro, cada ângulo, cada amanhecer e cada entardecer que, de acordo com minhas emoções, provocava gritos de alegria e de prazer. Ali, para nós, era o céu na terra; beleza natural exuberante, água de tanino (cor de coca cola) com sabor do céu, morros e vales compondo um cenário indescritível, vegetação rica, diversificada, incrível. Era preciso, a cada instante que mudava a direção da visão, respirar fundo, diminuir os passos e sorver a beleza que inundava os olhos. 

Nesse ambiente ficamos por dez dias. Dormimos em sacos de dormir, dentro de barraca, fora de barraca olhando as estrelas, ouvindo o silêncio do vale, o sonido das águas nas pedras e o grasnar das aves noturnas no seu mais perfeito “Jardim do Éden”. Falando em Jardim do Éden, num daqueles dias dormimos numa mini caverna (toca dois), melhor dizendo, uma loca de pedras. Ao amanhecer, nos levantamos e saímos para fora, conosco, também, saiu uma cobra, moradora do local há mais tempo.

Tudo bem, cada um respeitou a individualidade do outro. Esse é o melhor caminho para uma convivência pacífica.

Lembro-me que, na “Toca um”, num vale profundo, onde pernoitamos no dia anterior, chegamos ao entardecer. O local da “cozinha e os “aposentos” estavam logo acima de uma cachoeira. Foi ali que tomamos o banho de fim de dia, refrescante, revigorante e gratificante. Naquele vale, se chovesse, para evitar tromba d’água, seria necessário transferir os aposentos para a “diretoria”, um lugar mais alto, conhecido de todo visitante experiente do local.

Cuidamos de preparar a lenha para preparar o jantar. Tomamos nossa refeição no fim do dia; louça lavada, cozinha arrumada e conversa animada, de tal forma que, se não forçasse a interrupção, jamais acabaria. Nessa hora já sabíamos que naquela noite dormiríamos numa laje de pedras a dois metros da corrente de águas que descia da cachoeira da fumaça, que estava a um quilômetro dali, à montante.

Deitados, antes de dormir, iluminados pelas estrelas, conversávamos sobre as coisas do dia que havia terminado, sobre o programa do dia seguinte e sobre coisas que cada um, no seu dia-a-dia, tinha costume de fazer.

Meu amigão, que era do pedal, nessas horas, aproveitava para me convidar para pedalar. Nesses dez dias de trilhas ele deve ter me chamado para pedalar um milhão de vezes. Eu ouvia suas histórias e as guardava no coração.

Durante as longas caminhadas, entre um ponto e outro, nunca ficávamos calados, conversa entre amigos não tem fim. De vez em quando, no meio da conversa ele dizia “vamos pedalar”, “vamos pedalar”. Não sei o que ele achava em mim para ficar insistindo nesse assunto. Foi assim que fizemos essa incursão na Chapada Diamantina, percorrendo 100 km, fechando um círculo que iniciou e terminou em Lençóis.

Voltando para casa, de vez em quando, para relembrar o passeio, nos encontrávamos na “Kitinete”, uma lanchonete muito agradável, para conversarmos e relembrar coisas do passeio. Entrementes, “vamos pedalar”. Isso foi me enchendo o saco e, em junho de 2004, o convidei para me levar a uma loja de bicicleta, porque eu iria comprar uma.

Foi assim que, no dia 06 de junho, na Veloce, comprei, em seis parcelas, uma bicicleta Gios, de alumínio, aro 26 e selim semelhante a uma poltrona, vendida pelo Leo Giramundo, hoje, residente em Portugal.

Passado um tempo, depois que tinha tomado gosto pela coisa e certificado o quanto faz bem para o corpo e para a alma, comentei com alguns amigos do trabalho que havia comprado um “plano de saúde” em seis parcelas. Os mais ligados logo viram que plano de saúde não se compra em seis parcelas, porém, em parcelas mensais e sucessivas ad eternum e me questionaram sobre o que eu estava falando. Eu disse então, comprei uma bike. Esse é o verdadeiro plano de saúde, pois, aquele outro é plano para combater, evitar, e minimizar doença.

É aí que entra o “corretor de plano de saúde”, meu amigão Elias Paniago, que me introduziu num caminho sem volta, o da bike.


Hélio Vilela de Carvalho é engenheiro e ciclista, e foi o primeiro atleta brasileiro de MTB da Categoria Master 60-64 a obter o título de Campeão Mundial UCI.

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